• Raquel

Querida ansiedade

Atualizado: 6 de Set de 2019

Chegaste sem avisar e no dia em que me atingiste não tinhas motivo para estar lá. Aos 22 anos tinha conseguido arrendar a minha primeira casa e ia morar com a pessoa que escolhi para ter ao meu lado (ele, tu sabes). Tinha (e ainda tenho) um emprego onde me rodeava de pessoas que me faziam feliz (e que faço questão de levar para a minha vida). Mas, mesmo assim, ou não fosses tu de um feitio determinado, quiseste chegar. Já tinhas dado sinais da tua vontade ao longo das semanas anteriores, mas, apenas naquela noite senti a tua força e o teu aviso. Fizeste o meu coração acelerar sem que se conseguisse acalmar, atiraste-me ao chão com uma dor sufocante no peito. Nesse momento, senti que todos os meus sonhos acabariam ali e tinha a sensação que só a água, que atirava já sem forças para a cara de cinco em cinco segundos, me mantinha viva. Poucas horas depois, já no hospital, descobri que eras tu. Não te quis receber. Para mim, um ataque de ansiedade, durava quinze, vinte minutos. Tu estavas comigo há horas. Não acreditei. Eras mesmo tu, tinhas chegado e vieste para ficar.


No dia seguinte estava derrotada com a tua chegada, juro que te tentei enfrentar. Falhei. Durante cinco minutos dominei o carro e depois o medo dominou-me a mim. Descansei nesse dia, era o melhor a fazer, só assim te conseguiria enfrentar. Consegui trabalhar no dia que se seguiu, exausta e sem noção ainda do que vinha por aí, mas com a confiança de que ia passar. Só que... a confiança durou pouco tempo, não consegui reagir no próximo dia, nem no outro, nem no outro. Foste mais forte do que eu, fintaste-me de volta ao médico (ainda que acompanhada de um anjo da guarda que agradeço até hoje ter entrado na minha vida), ao hospital e ao pânico. Percebi que não te ia conseguir enfrentar sozinha. Calmantes e anti-depressivos fariam parte da minha equipa de ataque agora. Recusei de imediato, não queria aquilo para mim. Não queria dependência, não queria químicos no meu corpo, não queria. Ponto. Mas... voltei a ponderar. Eu tinha que te enfrentar. E assim foi.

Seguiu-se uma semana e dois dias em casa onde não me deste tréguas. Caramba. Estavas a dar tudo e claramente eu e a minha equipa química estávamos em desvantagem. Foi uma semana longa com altos e alguns baixos (só agora vejo desta forma) mas tinha um carinho que me rodeava de uma forma que me fazia acreditar que ia passar.


E lentamente o jogo mudou de direção, mesmo quando já estávamos em prolongamento de esforços, foi possível visualizar uma conquista e digo-te que esta foi também uma das semanas mais importantes da minha vida - recebi a chave da minha primeira casa e consegui mudar-me para lá.

Estava feliz. E tu, por muito que não quisesses admitir - que para além de determinada és um bocadinho teimosa - estavas finalmente a ficar em desvantagem. Venci-te por uns momentos e nem te deste conta disso.

Até à próxima jornada.


Raquel.

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A(trevo)-me

O A(trevo)-me foi idealizado com o intuito de inspirar o outro. É sobretudo um desabafo em forma de palavras, que não se deixaram ficar só num caderno no canto da secretária.

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